Tornara-se moda o entrar de livre vontade no grande casarão cor-de-rosa. Dois casos, o de João dos Reis e o do engenhocas, não seriam suficientes para que deles se tirassem conclusões. Mas que era estranho, lá isso era, tanto mais que ocorreram quase em simultâneo. As circunstâncias foram no entanto diferentes. O engenhocas entrou a falar mas quando disse ao médico psiquiatra que o analisou que era feliz, poeta e inventor, não foi preciso qualquer outro exame.
Veredicto médico: “Este senhor, que diz chamar-se engenhocas, é mesmo doido varrido!”
Os acontecimentos extraordinários é que não mais paravam de ocorrer, de tal forma, com tanta frequência, que o próprio João dos Reis saía cada vez menos e oferecia apenas rosas esporádicas.
O engenhocas lembrou-se a certa altura de organizar uma corrida de aranhas. Fê-lo, porque Leonor, aterrorizada, não cessava de berrar histericamente: “Tirem-me daqui estes aranhiços, levem-nos, malditos que me comem toda!”
Foi daí que lhe ocorreu a lembrança. Queria libertar a pobre mulher dos seus aranhiços e em lugar de com eles se amedrontar, passar a desfrutar de prazer, do intenso prazer que uma mulher consegue, quando finalmente se vê livre das teias de aranha que a amarravam e prendiam.
Foi à sua velha mala, uma relíquia de madeira, repleta de ferragens douradas amarelecidas pelo tempo, e de lá tirou, pela primeira vez desde que ali entrara, a sua velha gaita.
Andou pelos jardins do casarão tocando flauta e então algo de estranho se começou a passar. De todas as direcções, dos lados da segunda circular, das bandas do aeroporto e do Campo Grande, das paisagens a sul - Roma e outras avenidas novas - chegavam aranhas de todos os tipos e tamanhos. Saíam de tocas, de esconderijos quentes e abrigados do vento, de troncos e de ramadas de árvores, de cantos de velhas casas, e até de ocultos esconderijos onde mulheres de idade guardavam tesouros e jóias de um passado distante. Umas eram enormes mas finas, de pernas muito altas e elegantes; outras, gordas e peludas, corriam para o som da flauta como pontos grossos repletos de pêlos; outras ainda corriam vertiginosamente por serem pequenas e cheias de vida; mas outras, outras eram mais especiais do que qualquer das restantes: eram virtuais, invisíveis, e saíam de dentro da mente obscura da Leonor das aranhas.
Antes de a corrida se iniciar as aranhas eram tantas que apenas foi possível ao engenhocas dispô-las na linha de meta, prontas para a partida, no lado de fora do casarão, mesmo junto à casa do porteiro: a que faz de sala de espera. Foi aí que o engenhocas traçou um risco no chão, unindo o largo portão verde à escadaria principal.
As janelas do pavilhão central, tal como as das outras construções, ficaram cheios de caras entusiasmadas e ansiosas. Puseram-se a fazer apostas. A maioria dos loucos apostou nas aranhas magras e de grandes pernas. A maioria dos médicos, especialmente os psiquiatras, apostou nas aranhas da Leonor. Por uma razão simples: mais fácil lhes seria fazer batota: a vencedora poderia ser aquela em que apostaram que ninguém teria provas do contrário!
O engenhocas colocou-se à frente da multidão de aranhas e deu à gaita. Alguns aracnídeos, mais nervosos de pata, não esperaram pelo sopro inicial; falsa partida. Não foi fácil voltar a ordenar concorrentes tão indisciplinados. Finalmente a partida foi correcta. Uma melodia aguda e sibilante rasgou os ares, como se tivesse sido o vento a compô-la, fazendo-se passar por corda de violino onde o arco fosse as frestas de portas e de janelas: as teias oscilam: são as aranhas dançando, e partem agarradas ao fio de seda a caminho da luz do candelabro. Assim fizeram elas atrás da flauta mágica do engenhocas.
Quando a corrida terminou, por uma razão ou por outra, todos os doidos ficaram felizes; apenas os médicos desataram ao murro: todos eles juravam ter apostado na invisível aranha de Leonor que ganhara a corrida.
Certo dia, o engenhocas procurou João dos Reis durante o almoço e tentou ir à fala com ele. João permanecia mudo e de olhos tristes. O engenhocas tudo fez para o alegrar. Perguntou-lhe se queria que ele organizasse um circo; e João dos Reis abanou a cabeça dizendo que não. Perguntou-lhe se desejaria antes uma espécie de debate parlamentar, o Raspas faria de dirigente do maior partido da oposição, os outros chegariam para compor as diferentes bancadas, possivelmente os clínicos não se importariam de ser governo; mas João dos Reis permaneceu no seu imutável mutismo, a cabeça oscilando no gesto repetido de dizer que não. Até que o engenhocas se lembrou de organizar o grande baile da loucura no salão do hospício.
Pela primeira vez, João dos Reis não disse que não. Mas também não disse que sim. Oscilou a mão direita ao jeito de quem diz mais ou menos.
O engenhocas parecia contudo que lhe adivinhava os pensamentos, o que era obra, pois, de tanto tapar o funil, tinha não só a cabeça a derramar-se como todo o corpo estava a transbordar de ideias, de memórias, de emoções, e de futuras rosas por oferecer. Perguntou-lhe então se ele quereria que trouxesse ao grande baile da loucura todas as mulheres que ele fora conhecendo e com quem se cruzara ao longo de toda a sua vida. Pela primeira vez João dos Reis acenou que sim com a cabeça.
O engenhocas andou por fora durante perto de um mês. Consigo levara apenas a flauta mágica. Quando voltou, num dia resplandecente de sol, por sinal no dia de São João, trazia atrás da sua gaita centenas e centenas de mulheres de todas as fisionomias, tipos e tamanhos, e todas elas vinham vestidas a preceito para o grande baile da loucura.
Ninguém ficou de fora. Todos dançaram. Doidos e doidas. Médicos e enfermeiras. Enfermeiros e médicas. Guardas e seguranças.
No grande baile da loucura seria impossível distinguir doidos de não doidos, loucos e sensatos, mas todos estavam felizes.
João dos Reis dançou a noite inteira, feliz por ali ver a Rosinha da Aldeia da Pinha, a Margarida da Aldeia da Solidão, a Gabriela do vestido negro do Bolero, a Isilda de pele de alforreca - , decrépita de tanto se ter deitado na pensão do leite azedo - , a Joana da voz de anjo ou de demónio, a Jacinta da Ilha Encantada, - que continuava pensando alto com o seu Artur - , a Mariana que viera com Carlos da Aldeia do Vento, a Florbela que sozinha se deslocara desde o outro lado do grande rio, a madrinha Gabriela que fugira do túmulo, as mulheres do salão da Aldeia Fantasma, e claro, as centenas de mulheres lindas e anónimas a quem João dos Reis fora oferecendo rosas ao longo de anos por toda a grande cidade.
No final do baile, arrebatados por uma alegria sincera e esfuziante, fizeram uma enorme roda de mãos dadas, todas elas, sem mágoas nem ressentimentos. E João dos Reis, pela primeira vez desde há muito tempo, voltou a falar e a exprimir bem alto todos os seus pensamentos. Mesmo assim João dos Reis não reconheceu Malaquias. Nem este lhe recordou quem era.
O destino se encarregou de lhe avivar a memória. Acabou por descobrir a identidade do engenhocas quando numa manhã de vento forte este se lançou do varandim, o que se ergue sobre o telhado do grande casarão, sentado numa cadeira de cordas e suspenso de uma mar de chapéus de sol e de chuva com as cores misturadas iguais às de um arco-íris, num dia negro de trovoada.
Aterrou desta vez em cima da cabeça do Santo António.
Os fenómenos anormais, completamente imprevisíveis, que se sucediam a um ritmo alucinante, começaram a provocar efeitos secundários ainda mais estranhos e invulgares. Sem que ninguém consiga explicar, ou entender as razões, os loucos do hospício iam ficando igualmente loucos, mas de uma loucura diferente. Em lugar dos fantasmas e dos terrores que os perseguiram ao longo de anos começaram a sentir a loucura feliz dos que se alimentam da imaginação e a quem as asas do sonho comandam.
De tal forma assim foi que os doidos do hospício não cessavam de aumentar, em número e em qualidade. Primeiro foram os guardas e seguranças que deram o mote: queriam ser doidos.
Seguiram-se os auxiliares e o pessoal de enfermagem; e por último até os médicos quiseram passar para o outro lado.
O serviço nacional de saúde, que já estava desde há muito abalado nos seus fundamentos, conheceu uma nova ameaça, tão imprevista quanto inusitada. Os responsáveis do ministério procuraram atalhar o problema aumentando drasticamente o número de vagas nas escolas de medicina e reduziram o número de anos dos cursos. Mas os estudantes, mal saíam das escolas, por já virem quase doidos, entravam
directamente para o campo dos loucos e nem médicos chegavam a ser.
Recorreram às horas extraordinárias dos cada vez menos numerosos médicos em actividade, mas estes, pouco habituados a tanto trabalho, endoideciam e o hospício tornava-se pequeno para tantos ocupantes.
Não teve o ministério outro remédio a não ser a importação de médicos. Vieram de Espanha e do Leste, mas quando entravam no Parque de Saúde de Lisboa desatavam a rir por tudo e por nada, babavam-se felizes, ofereciam rosas e papoilas, falavam castelhano e romeno a quem os não entendia, abandonavam as batas e vestiam-se a condizer com os ocultos sonhos de criança, e tudo voltava à mesma.
O primeiro-ministro, que já não sabia o que havia de fazer para arrumar a casa tão desorganizada e à deriva que era o país, viu-se a braços com mais um problema: os doidos que já eram muitos, em muitos mais se tornavam; e até os médicos já não queriam outra coisa.
Fez de tudo quanto lhe ocorreu para resolver a crise. Ouviu sábios, cientistas, homens das letras e da educação, juristas e médicos, afastados estes há muito do serviço, - razão pela qual não se deixaram contaminar pela loucura - , especialistas em agricultura e pescas, autoridades em matérias de segurança e de defesa, mas em todos eles tinham secado as ideias, de tantos estados gerais em que as expuseram, sem que delas fizessem caso. Era tanta a sua angústia, estava tomado de tal forma pelo desespero, que até decidiu ouvir todos os dirigentes dos partidos da oposição. Mas as ideias expostas por cada um deles eram de tal forma herméticas e fechadas, prisioneiros no círculo das suas convicções, que todas misturadas não deram nada; nem chegariam para uma política feita de mantas de retalhos.
Virou-se para os ex-ministros, mas estes, amarrados a sentimentos negativos de despeito, esqueciam-se do tempo em que defendiam absurdos realizáveis e passaram a expor-lhe ideias de bom senso, mas por isso mesmo impraticáveis no seu país.
Quando chegou aos ouvidos do primeiro-ministro o que de louco mas maravilhoso se ia passando no Parque de Saúde de Lisboa virou-se para aí com unhas e dentes, pressentindo que de lá viria a salvação do país. Não se lhe pode levar a mal pois era a sua única esperança.
Pediu então que fosse organizada, durante uma semana, uma presidência aberta no grande casarão cor-de-rosa, à Avenida do Brasil.
Dias e dias a fio, até durante noites sem descanso, viu e ouviu as ideias que dali brotavam; e mais do que isso; que ali se concretizavam e davam frutos.
Algum tempo depois o país transformar-se-ia no maior exportador de inventos, capazes de tornar felizes os loucos, de dar sonhos a quem os perdeu, e de transformar a noite escura do dia em dia claro até mesmo de noite escura.
Até que ocorreu, com toda a naturalidade, o que há muito era esperado: a Presidência da República mudou-se de armas e bagagens para o Júlio de Matos. O governo, receando perder a corrida da inovação, e atrasar-se assim irremediavelmente, seguiu-lhe o exemplo, a bem da cooperação e da coordenação institucionais. A Assembleia da República não lhes quis ficar atrás. Acordaram os grupos parlamentares, por unanimidade, que um lugar no Júlio de Matos seria benéfico para a actividade parlamentar e portanto seria do interesse nacional.
Contudo, o espaço no Parque de Saúde de Lisboa já era exíguo para tantas instituições, e inquilinos, além de que seria um erro concentrar inúmeras personalidades no mesmo local. Seria um erro estratégico colossal face às crescentes ameaças de terrorismo internacional.
Esperançados de que o terreno no Miguel Bombarda fosse tão produtivo em matéria de engenho e de novas ideias quanto o do Júlio de Matos fora, os parlamentares ocuparam de um dia para o outro as instalações deste hospício por troca com São Bento.
João dos Reis permaneceu no grande casarão cor-de-rosa, à Avenida do Brasil, agora convertido em Palácio Presidencial.
Sentindo-se verdadeiramente em casa, liberto de todos os seus fantasmas, pensando e falando em voz alta, quando muitos já o julgavam senil e louco, acabou por se tornar Presidente da República.
Malaquias, que cada vez gostava mais de dar menos nas vistas, avesso a lugares públicos, aceitou participar no Conselho de Estado onde se tornou responsável pela área da investigação e das novas tecnologias.
João dos Reis, esse, deixou de oferecer rosas.
Nunca as deixou de admirar, cheirar, olhar; mas jamais as voltou a colher.
João dos Reis nunca existiu. Mas este país de doidos existe mesmo. Descubram onde ele fica. E façam-se de loucos felizes porque apenas estes, mesmo sendo adultos, são eternamente crianças, as mais felizes e puras de todas as criaturas.
Quando as deixam ser!











