FIM

31.12.10

 

Tornara-se moda o entrar de livre vontade no grande casarão cor-de-rosa. Dois casos, o de João dos Reis e o do engenhocas, não seriam suficientes para que deles se tirassem conclusões. Mas que era estranho, lá isso era, tanto mais que ocorreram quase em simultâneo. As circunstâncias foram no entanto diferentes. O engenhocas entrou a falar mas quando disse ao médico psiquiatra que o analisou que era feliz, poeta e inventor, não foi preciso qualquer outro exame.

Veredicto médico: “Este senhor, que diz chamar-se engenhocas, é mesmo doido varrido!”

Os acontecimentos extraordinários é que não mais paravam de ocorrer, de tal forma, com tanta frequência, que o próprio João dos Reis saía cada vez menos e oferecia apenas rosas esporádicas.

O engenhocas lembrou-se a certa altura de organizar uma corrida de aranhas. Fê-lo, porque Leonor, aterrorizada, não cessava de berrar histericamente: “Tirem-me daqui estes aranhiços, levem-nos, malditos que me comem toda!”

Foi daí que lhe ocorreu a lembrança. Queria libertar a pobre mulher dos seus aranhiços e em lugar de com eles se  amedrontar, passar a desfrutar de prazer, do intenso prazer que uma mulher consegue, quando finalmente se vê livre das teias de aranha que a amarravam e prendiam.

Foi à sua velha mala, uma relíquia de madeira, repleta de ferragens douradas amarelecidas pelo tempo, e de lá tirou, pela primeira vez desde que ali entrara, a sua velha gaita.

Andou pelos jardins do casarão tocando flauta e então algo de estranho se começou a passar. De todas as direcções, dos lados da segunda circular, das bandas do aeroporto e do Campo Grande, das paisagens a sul - Roma e outras avenidas novas - chegavam aranhas de todos os tipos e tamanhos. Saíam de tocas, de esconderijos quentes e abrigados do vento, de troncos e de ramadas de árvores, de cantos de velhas casas, e até de ocultos esconderijos onde mulheres de idade guardavam tesouros e jóias de um passado distante. Umas eram enormes mas finas, de pernas muito altas e elegantes; outras, gordas e peludas, corriam para o som da flauta como pontos grossos repletos de pêlos; outras ainda corriam vertiginosamente por serem pequenas e cheias de vida; mas outras, outras eram mais especiais do que qualquer das restantes: eram virtuais, invisíveis, e saíam de dentro da mente obscura da Leonor das aranhas.

Antes de a corrida se iniciar as aranhas eram tantas que apenas foi possível ao engenhocas dispô-las na linha de meta, prontas para a partida, no lado de fora do casarão, mesmo junto à casa do porteiro: a que faz de sala de espera. Foi aí que o engenhocas traçou um risco no chão, unindo o largo portão verde à escadaria principal.

As janelas do pavilhão central, tal como as das outras construções, ficaram cheios de caras entusiasmadas e ansiosas. Puseram-se a fazer apostas. A maioria dos loucos apostou nas aranhas magras e de grandes pernas. A maioria dos médicos, especialmente os psiquiatras, apostou nas aranhas da Leonor. Por uma razão simples: mais fácil lhes seria fazer batota: a vencedora poderia ser aquela em que apostaram que ninguém teria provas do contrário!

O engenhocas colocou-se à frente da multidão de aranhas e deu à gaita. Alguns aracnídeos, mais nervosos de pata, não esperaram pelo sopro inicial; falsa partida. Não foi fácil voltar a ordenar concorrentes tão indisciplinados. Finalmente a partida foi correcta. Uma melodia aguda e sibilante rasgou os ares, como se tivesse sido o vento a compô-la, fazendo-se passar por corda de violino onde o arco fosse as frestas de portas e de janelas: as teias oscilam: são as aranhas dançando, e partem agarradas ao fio de seda a caminho da luz do candelabro. Assim fizeram elas atrás da flauta mágica do engenhocas.

Quando a corrida terminou, por uma razão ou por outra, todos os doidos ficaram felizes; apenas os médicos desataram ao murro: todos eles juravam ter apostado na invisível aranha de Leonor que ganhara a corrida.

Certo dia, o engenhocas procurou João dos Reis durante o almoço e tentou ir à fala com ele. João permanecia mudo e de olhos tristes. O engenhocas tudo fez para o alegrar. Perguntou-lhe se queria que ele organizasse um circo; e João dos Reis abanou a cabeça dizendo que não. Perguntou-lhe se desejaria antes uma espécie de debate parlamentar, o Raspas faria de dirigente do maior partido da oposição, os outros chegariam para compor as diferentes bancadas, possivelmente os clínicos não se importariam de ser governo; mas João dos Reis permaneceu no seu imutável mutismo, a cabeça oscilando no gesto repetido de dizer que não. Até que o engenhocas se lembrou de organizar o grande baile da loucura no salão do hospício.

Pela primeira vez, João dos Reis não disse que não. Mas também não disse que sim. Oscilou a mão direita ao jeito de quem diz mais ou menos.

O engenhocas parecia contudo que lhe adivinhava os pensamentos, o que era obra, pois, de tanto tapar o funil, tinha não só a cabeça a derramar-se como todo o corpo estava a transbordar de ideias, de memórias, de emoções, e de futuras rosas por oferecer. Perguntou-lhe então se ele quereria que trouxesse ao grande baile da loucura todas as mulheres que ele fora conhecendo e com quem se cruzara ao longo de toda a sua vida. Pela primeira vez João dos Reis acenou que sim com a cabeça.

O engenhocas andou por fora durante perto de um mês. Consigo levara apenas a flauta mágica. Quando voltou, num dia resplandecente de sol, por sinal no dia de São João, trazia atrás da sua gaita centenas e centenas de mulheres de todas as fisionomias, tipos e tamanhos, e todas elas vinham vestidas a preceito para o grande baile da loucura.

Ninguém ficou de fora. Todos dançaram. Doidos e doidas. Médicos e enfermeiras. Enfermeiros e médicas. Guardas e seguranças.

No grande baile da loucura seria impossível distinguir doidos de não doidos, loucos e sensatos, mas todos estavam felizes.

João dos Reis dançou a noite inteira, feliz por ali ver a Rosinha da Aldeia da Pinha, a Margarida da Aldeia da Solidão, a Gabriela do vestido negro do Bolero, a Isilda de pele de alforreca - , decrépita de tanto se ter deitado na pensão do leite azedo - , a Joana da voz de anjo ou de demónio, a Jacinta da Ilha Encantada, - que continuava pensando alto com o seu Artur - , a Mariana que viera com Carlos da Aldeia do Vento, a Florbela que sozinha se deslocara desde o outro lado do grande rio, a madrinha Gabriela que fugira do túmulo, as mulheres do salão da Aldeia Fantasma, e claro, as centenas de mulheres lindas e anónimas a quem João dos Reis fora oferecendo rosas ao longo de anos por toda a grande cidade.

No final do baile, arrebatados por uma alegria sincera e esfuziante, fizeram uma enorme roda de mãos dadas, todas elas, sem mágoas nem ressentimentos. E João dos Reis, pela primeira vez desde há muito tempo, voltou a falar e a exprimir bem alto todos os seus pensamentos. Mesmo assim João dos Reis não reconheceu Malaquias. Nem este lhe recordou quem era.

O destino se encarregou de lhe avivar a memória. Acabou por descobrir a identidade do engenhocas quando numa manhã de vento forte este se lançou do varandim, o que se ergue sobre o telhado do grande casarão, sentado numa cadeira de cordas e suspenso de uma mar de chapéus de sol e de chuva com as cores misturadas iguais às de um arco-íris, num dia negro de trovoada.

Aterrou desta vez em cima da cabeça do Santo António.

 

Os fenómenos anormais, completamente imprevisíveis, que se sucediam a um ritmo alucinante, começaram a provocar efeitos secundários ainda mais estranhos e invulgares. Sem que ninguém consiga explicar, ou entender as razões, os loucos do hospício iam ficando igualmente loucos, mas de uma loucura diferente. Em lugar dos fantasmas e dos terrores que os perseguiram ao longo de anos começaram a sentir a loucura feliz dos que se alimentam da imaginação e a quem as asas do sonho comandam.

De tal forma assim foi que os doidos do hospício não cessavam de aumentar, em número e em qualidade. Primeiro foram os guardas e seguranças que deram o mote: queriam ser doidos.

Seguiram-se os auxiliares e o pessoal de enfermagem; e por último até os médicos quiseram passar para o outro lado.

O serviço nacional de saúde, que já estava desde há muito abalado nos seus fundamentos, conheceu uma nova ameaça, tão imprevista quanto inusitada. Os responsáveis do ministério procuraram atalhar o problema aumentando drasticamente o número de vagas nas escolas de medicina e reduziram o número de anos dos cursos. Mas os estudantes, mal saíam das escolas, por já virem quase doidos, entravam
directamente para o campo dos loucos e nem médicos chegavam a ser.

Recorreram às horas extraordinárias dos cada vez menos numerosos médicos em actividade, mas estes, pouco habituados a tanto trabalho, endoideciam e o hospício tornava-se pequeno para tantos ocupantes.

Não teve o ministério outro remédio a não ser a importação de médicos. Vieram de Espanha e do Leste, mas quando entravam no Parque de Saúde de Lisboa desatavam a rir por tudo e por nada, babavam-se felizes, ofereciam rosas e papoilas, falavam castelhano e romeno a quem os não entendia, abandonavam as batas e vestiam-se a condizer com os ocultos sonhos de criança, e tudo voltava à mesma.

O primeiro-ministro, que já não sabia o que havia de fazer para arrumar a casa tão desorganizada e à deriva que era o país, viu-se a braços com mais um problema: os doidos que já eram muitos, em muitos mais se tornavam; e até os médicos já não queriam outra coisa.

Fez de tudo quanto lhe ocorreu para resolver a crise. Ouviu sábios, cientistas, homens das letras e da educação, juristas e médicos, afastados estes há muito do serviço, - razão pela qual não se deixaram contaminar pela loucura - , especialistas em agricultura e pescas, autoridades em matérias de segurança e de defesa, mas em todos eles tinham secado as ideias, de tantos estados gerais em que as expuseram, sem que delas fizessem caso. Era tanta a sua angústia, estava tomado de tal forma pelo desespero, que até decidiu ouvir todos os dirigentes dos partidos da oposição. Mas as ideias expostas por cada um deles eram de tal forma herméticas e fechadas, prisioneiros no círculo das suas convicções, que todas misturadas não deram nada; nem chegariam para uma política feita de mantas de retalhos.

 

Virou-se para os ex-ministros, mas estes, amarrados a sentimentos negativos de despeito, esqueciam-se do tempo em que defendiam absurdos realizáveis e passaram a expor-lhe ideias de bom senso, mas por isso mesmo impraticáveis no seu país.

Quando chegou aos ouvidos do primeiro-ministro o que de louco mas maravilhoso se ia passando no Parque de Saúde de Lisboa virou-se para aí com unhas e dentes, pressentindo que de lá viria a salvação do país. Não se lhe pode levar a mal pois era a sua única esperança.

Pediu então que fosse organizada, durante uma semana, uma presidência aberta no grande casarão cor-de-rosa, à Avenida do Brasil.

Dias e dias a fio, até durante noites sem descanso, viu e ouviu as ideias que dali brotavam; e mais do que isso; que ali se concretizavam e davam frutos.

Algum tempo depois o país transformar-se-ia no maior exportador de inventos, capazes de tornar felizes os loucos, de dar sonhos a quem os perdeu, e de transformar a noite escura do dia em dia claro até mesmo de noite escura.

Até que ocorreu, com toda a naturalidade, o que há muito era esperado: a Presidência da República mudou-se de armas e bagagens para o Júlio de Matos. O governo, receando perder a corrida da inovação, e atrasar-se assim irremediavelmente, seguiu-lhe o exemplo, a bem da cooperação e da coordenação institucionais. A Assembleia da República não lhes quis ficar atrás. Acordaram os grupos parlamentares, por unanimidade, que um lugar no Júlio de Matos seria benéfico para a actividade parlamentar e portanto seria do interesse nacional.

Contudo, o espaço no Parque de Saúde de Lisboa já era exíguo para tantas instituições, e inquilinos, além de que seria um erro concentrar inúmeras personalidades no mesmo local. Seria um erro estratégico colossal face às crescentes ameaças de terrorismo internacional.

Esperançados de que o terreno no Miguel Bombarda fosse tão produtivo em matéria de engenho e de novas ideias quanto o do Júlio de Matos fora, os parlamentares ocuparam de um dia para o outro as instalações deste hospício por troca com São Bento.

João dos Reis permaneceu no grande casarão cor-de-rosa, à Avenida do Brasil, agora convertido em Palácio Presidencial.

Sentindo-se verdadeiramente em casa, liberto de todos os seus fantasmas, pensando e falando em voz alta, quando muitos já o julgavam senil e louco, acabou por se tornar Presidente da República.

Malaquias, que cada vez gostava mais de dar  menos nas vistas, avesso a lugares públicos, aceitou participar no Conselho de Estado onde se tornou responsável pela área da investigação e das novas tecnologias.

João dos Reis, esse, deixou de oferecer rosas.

Nunca as deixou de admirar, cheirar, olhar; mas jamais as voltou a colher.



João dos Reis nunca existiu. Mas este país de doidos existe mesmo. Descubram onde ele fica. E façam-se de loucos felizes porque apenas estes, mesmo sendo adultos, são eternamente crianças, as mais felizes e puras de todas as criaturas.

Quando as deixam ser!   

publicado por jose murta lourenço às 13:46

CAPÍTULO 24 :A CAMINHO DO FIM

24.12.10

 

Ao fim da tarde, João dos Reis regressou a casa, ao solar rosado da Avenida do Brasil. Trazia de volta uma única papoila, que guardara para oferecer à madrinha Gabriela.

Cruzou o portão verde e antes de atingir o primeiro dos degraus da larga escadaria, a que conduz ao edifício principal, começou a ouvir uma grande algazarra, um alvoroço muito diferente de todos quantos ouvira até então. Naquele parque de saúde, como em tantos outros, os alvoroços são frequentes mas feitos de sons descoordenados. Aquele era um alvoroço em uníssono, sinal de que todos os alvoraçados o exprimiriam ao mesmo tempo, de forma síncrona.

Subiu a escadaria e a barulheira cresceu de tom. Cruzou a grande porta verde e não acreditou no que estava a acontecer. Esfregou os olhos mas as imagens persistiam, teimosas. Limpou os ouvidos com a ponta dos dedos, apenas um pouco de cera se lhe colou às unhas, e a algaraviada não esmoreceu; antes se tornou mais intensa, com a intensidade que lhe conferia a simultaneidade dos sentidos: o que se ouvia correspondia exactamente ao que se via!

Acordou da paralisia súbita em que mergulhara quando o Raspas a seu lado lhe segredou com voz trovejante, para que João dos Reis o ouvisse: “É o engenhocas; chegou hoje de  manhã, depois de tu teres saído.”

A larga escadaria de pedra, a que une o piso térreo ao andar superior, estava apinhada de gente de olhos esbugalhados e felizes. Apertavam-se para ver melhor. Todo o hospício ali estava representado, sem distinções de classes ou de condições.

Empurrando-se, para desfrutar de melhor vista, ali se encontravam os ocupantes do anexo nascente, - os que criam ser bois e vacas e assim passavam o dia cornando e mugindo - , os do anexo norte - que julgando ser reis, rainhas, príncipes e princesas ocupavam os tempos em cortes e golpes palacianos - , os do anexo poente - bebés e crianças que aos setenta e oitenta anos ainda chuchavam no dedo, mijavam na cama, e choravam o dia inteiro berrando pelas mamãs - e os do pavilhão central, de batas brancas e estetoscópios, médicos de todas as especialidades desde neurologistas e psiquiatras, até aos clínicos gerais; ainda enfermeiros e enfermeiras; além do restante pessoal auxiliar onde não faltavam os próprios guardas e seguranças.

João dos Reis permaneceu em baixo, para ver melhor, no grande salão, em companhia do Raspas, que ciente do seu estatuto de homem público, segurava indolentemente, com a elegância própria de parlamentar, o seu guarda-chuva.

Maria da Graça, a bailarina do Lago dos Cisnes, parecia suspensa da abóbada do tecto, como se levitasse, e as suas pernas esqueléticas e tesas dependuravam-se do corpo livre de sapatos. Nas mãos segurava uma corda de “nylon” azul que fazia subir e descer, ora lhe rasava o carrapito ora roçava pelas plantas brancas de seda que lhe cobriam os pés, e nada se via que pudesse explicar tão estranho milagre.

Apenas os ombros pareciam ser um pouco disformes.

Como se ela se tivesse suspendido numa cruzeta de guarda-fato. Contudo, na abóbada, sobre a sua cabeça, alguém amarrara com grossas cordas uma estranha barra de aço meio negro meio azul, mas tudo misturado, como numa noite de trovoada em que é impossível, mesmo que se queira, olhar a escuridão sem ver a luz azulada do relâmpago, ou ver esta luz sem o negro da noite.

Durante mais de duas horas, sem parar, Maria da Graça saltou à corda. Quando se cansou e gritou: “Tirem-me daqui! Tirem-me daqui!”, o homem alto e gordo, de cabelos revoltos e enleados por milhares de caracóis, chegou perto do Raspas e pediu-lhe o guarda-chuva. “É o engenhocas” disse o Raspas na direcção de João dos Reis. E logo de seguida: “Porque me pedes a minha bengala e não dizes ao maestro Dodato que te empreste a batuta?”. Muito contra a sua vontade, o deputado, que por vezes era polícia sinaleiro, que por vezes também fazia de soldado armado de chapéu-de-chuva, entregou-lhe o instrumento.

Então o engenhocas, decidido e firme nos seus propósitos, - sabia mesmo o que estava fazendo - , avançou para o centro do salão, colocou-se por debaixo da Maria da Graça, um pouco para o lado, e apontou a ponta metálica do chapéu negro na direcção da coisa negra e azulada presa na abóbada.

Por pouco não levantava voo atrás do instrumento; mas cravou os pés no soalho e aguentou firme.

Maria da Graça, por artes mágicas, começou a descer lentamente, parecia um prego sem peso caindo sobre chão de areia, a aterragem foi tão suave que nem se ouviu, tal o coro de aplausos entusiásticos que doidos bovinos, nobres, chorões, médicos, enfermeiros, enfermeiras, pessoal auxiliar da limpeza e da manutenção, seguranças e contínuos, todos eles, dispensaram à cena do engenhocas que foi capaz de tornar realidade o sonho mais antigo de Maria da Graça: voltar a saltar à corda, como fazia no jardim da sua infância!

João dos Reis olhou fascinado aquele mago a quem ouviu chamar engenhocas. Lembrou-lhe alguém. Mas a recordação era vaga, muito distante, e de tão longínqua não tinha nem rosto nem nome concreto.

 

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publicado por jose murta lourenço às 11:38

CAPÍTULO 23 :CONTINUAÇÃO 3

23.12.10

 

 

João dos Reis pôs-lhe na mão uma velha moeda de cinco réis e o clínico começou a pensar que ele era mais um dos que afirmavam convictos serem el-rei Dom Sebastião, ou el-rei Dom Carlos. Pediu-lhe os documentos e João dos Reis disse não com a cabeça.

Perguntou-lhe o que fizera, ou fazia, e ele desenhou, numa folha de papel, uma rosa.

O clínico quis saber se fora jardineiro, ou dirigente
político, ou se tal gosto se devia à rosa em si. João dos Reis estendeu as duas mãos, de braços abertos, como se estivesse dizendo: “Em verdade, em verdade vos digo!”, e o clínico entendeu tal gesto como sendo de dádiva.

Perguntou-lhe se ele oferecia rosas. E João dos Reis abanou a cabeça, para cima e para baixo, em sinal afirmativo.

Este último facto, o de João dos Reis oferecer rosas, terá sido determinante para que o clínico o considerasse efectivamente louco; e prescindiu de quaisquer outros exames neurológicos, psicológicos, ou psiquiátricos.

Desde então não mais parou de as oferecer. Todos os dias, de manhã cedo, se não ameaçasse chover, punha-se a descer a Avenida de Roma em direcção à Praça do Santo António.

Entrava numa florista, ele mesmo escolhia e segurava a rosa vermelha, pagava, guardava-a junto ao coração por debaixo do casaco ou sob a camisa, se o tempo fosse de calor, e caminhava lentamente em busca de um alvo.

Escolhia sempre o carro de uma mulher bonita, fosse ela loura ou morena. E João dos Reis tinha bom gosto. Lá isso tinha. Esperava que a condutora dos seus sonhos arrumasse o carro, via-a de longe, admirava-lhe a beleza do rosto, a elegância do corpo, o perfume que lhe adivinhava na pele, o cabelo sedoso e macio. Depositava então a flor no limpa pára-brisas e ali ficava, confundido com as sombras dos prédios, até a ver chegar.

Fascinava-o a expressão do rosto feminino colhido de surpresa. Emocionava-se com a emoção que sentia no corpo da mulher ao ver a rosa. Quando um dia lhe via no rosto um sorriso de felicidade anónimo, porque anónimo era o autor da oferenda, sentia-se extremamente feliz: assim amava e  assim se sentia amado; e este amor jamais poderia conduzir ao pesadelo e à obsessão, à violência e à posse que tudo conspurca e destrói.

Chegou a oferecer durante semanas seis rosas por dia mas foi forçado a conter-se, pois, se o seu coração era enorme, e portanto tinha amor que chegaria para tantas escolhidas, o seu corpo era só um; e as forças começavam a faltar-lhe para tantas correrias em horários diferentes que o incremento desmesurado de dádivas tornara excessivamente próximos.

Naquele dia de Maio, dia da espiga, não iria oferecer rosas. Iria sim oferecer papoilas, vermelhas, como fazia o Texana - já tão longe e distante·, quando ele ainda era uma criança. Foi há tantos anos! Que seria feito dele?

 

 

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CAPÍTULO 23 :CONTINUAÇÃO 2

17.12.10

 

 

Alguns dias depois, transportando uma simples mala com roupa e objectos pessoais, que guardava religiosamente, entrou por sua livre vontade, sem mão que o empurrasse pelas costas, sem camisa de forças que o tolhesse, pelo largo portão verde da grande casa cor-de-rosa que se espraia ao longo da Avenida do Brasil.

  Não foi difícil a João dos Reis a admissão no Parque de Saúde de Lisboa. Mal entrou, raiavam os primeiros feixes de luz da manhã daquele dia primaveril, de mala na mão, o porteiro que se resguardava à porta do pequeno anexo que faz de sala de espera, ao vê-lo passar, pensou: "Este não está bom do juízo!"

Fundamentava-se o diagnóstico do porteiro na constatação de um simples facto: ninguém com um pouco de senso entraria por aquele portão de sua livre e espontânea vontade. A agravar este primeiro sintoma indicativo de completa loucura, um segundo, igualmente grave e perturbador, foi referenciado pela argúcia do funcionário da portaria: “Quem é que no seu perfeito juízo, para além de entrar de livre vontade num hospício, ainda por cima escolheria para o fazer uma tão linda manhã primaveril?”

Ao abordá-lo, para dissipar dúvidas que se lhe instalaram, não fosse o senhor, que até estava bem vestido, afinal  familiar de um doente, convenceu-se definitivamente que o homem era mesmo doido.

João dos Reis tapara completamente o funil e nem umas simples gotas do seu pensamento conseguia deixar escapar; muito menos se fariam ouvir quaisquer palavras, mesmo que curtas, ou simples sons monossilábicos.

Parecia mudo, mas não era surdo, já que o porteiro, aflito, lhe perguntou para onde é que ele ia e o homem apontou-lhe a porta, que se vislumbrava ao cimo da escadaria do corpo principal do edifício, por onde veio a desaparecer.

Cruzou-se João dos Reis com uma velha bailarina, - saberia mais tarde que se chamava Maria da Graça, - que dançava ao som de uma valsa invisível: deveria ser, a acreditar no ritmo suave e envolvente da batuta do maestro: que mais tarde saberia tratar-se de Dodato.

Ouviu ao longe os discursos inflamados de um tal Raspas a quem os outros mandavam calar, e de rompante entrou no gabinete do psiquiatra de dia.

O clínico olhou-o admirado. Não esperava um doente àquela hora. Pôs de parte o livro aos quadradinhos com que se entretinha nos tempos livres e perguntou-lhe como se chamava.

 

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publicado por jose murta lourenço às 13:45

CAPÍTULO 23 :CONTINUAÇÃO 1

10.12.10

 

 

Mas João dos Reis não era assim; nem conseguiria ser dessa forma. Ele estaria onde se sentisse bem, mesmo que não conseguisse explicar porque se sentiria bem. Quanto mais Mariana insistisse para que abrisse o livro, ou as portas do seu íntimo de par em par, mais ele as fechava.

A verdade é que ele não perguntara, nem perguntaria nada sobre a vida de Mariana, durante tantos anos de ausência. Ela seria obviamente livre de o não aceitar. Tinha todo esse direito. Por inteiro. Mas se João dos Reis nada lhe perguntara, nem perguntaria, porque o teriam que violentar obrigando-o a falar de um passado, que por ser passado, não era mais do que passado?

Carlos também retrocedeu no entusiasmo inicial com que recebera o pai. Enquanto fora jovem e precisara dele, não o tivera. Muitas vezes, quando os colegas apareciam acompanhados pelos pais, ou estes iam assistir a actividades promovidas pelo liceu, o pai não estivera a seu lado. Um dia perguntaram-lhe se ele não tinha pai. Carlos preferiu responder que havia morrido, tinha ele quinze anos, do que contar que o possuía mas que nem sabia onde ele morava.

Agora que já namorava, e que até da mãe se ia afastando, porquê receber um pai que dele não quisera saber e o abandonara quando tanto precisara da sua companhia?

João dos Reis olhou para Mariana e viu desfilarem à sua frente, de novo, as noites em que sentiu medo das intermináveis conversas lógicas sobre o absurdo do seu comportamento.

Olhou para Carlos e sentiu-o distante, como se tivesse perdido a sua qualidade de pai; e como se o filho o preferisse ver definitivamente morto ou desaparecido.

 

Talvez nada disto tenha sido assim; e apenas a profunda culpa que João dos Reis carregava lhe tivesse traçado quadro tão negro.

João dos Reis não precisou de voltar a fugir porque nem sequer chegou a entrar.

 

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publicado por jose murta lourenço às 15:37

CAPÍTULO 23 :CONTINUA

03.12.10

 

Mariana envelhecera, o que era natural. João dos Reis parecia igualmente mais velho; e de facto assim era.

Se qualquer dúvida existisse a respeito da maior velhice de ambos, ali estava Carlos para a dissipar. Fizera-se um homem, alto, mais alto do que o pai, forte e bonito. No rosto, o traço mais característico da sua pujante juventude: a pele fina de imberbe onde uns olhos azuis de uma transparência infinita pareciam irradiar luz.

João, trémulo de emoção, e com algum medo à mistura, tocou à sineta. Alguns instantes depois, que pareceram horas, a frincha da porta verde da casa cor-de-rosa abriu-se e nesse momento sentiu o coração aos pulos, prestes a saltar-lhe do peito, a garganta ganhara uma súbita tumefacção, quis gritar: “Sou eu!” mas nada mais lhe saiu pela boca do que um som incaracterístico confundido com o ranger dos gonzos da velha porta.

Reconheceram-no logo. Mariana veio a correr abrir-lhe a portada de acesso ao jardim, o das rosas vermelhas que ele um dia abandonara, enquanto Carlos, incrédulo, de rosto muito corado, parecia não saber bem que atitude deveria tomar. Notava-se que o rapaz, então já quase um homem, se debateria em muitos conflitos interiores. Por um lado tratava-se do seu pai, alguém a quem a vida também devera,
que regressava de uma longa e inexplicável ausência. Pelo menos ele não a entendia e nunca lhe conseguiram explicar as razões, se é que razões existiram; podiam ter sido unicamente sentidas e quem as sentiu pode não ter querido ou nem sequer ser capaz de explicar tão inexplicável atitude.

Mariana foi a primeira a abraçá-lo e assim ficou, largos minutos, paralisada pela emoção. Carlos seguiu-lhe o exemplo e abraçados riram e choraram os três.

Foi sol de pouca dura, tal envolvimento. João e Mariana continuaram, possivelmente, amando-se; mas cada um deles amava apenas de facto a memória da parte boa do outro. As partes irreconciliáveis de cada um bem depressa deram sinais de vida e voltaram à carga.

Mariana permanecera emotiva e sensível, mas dominada pelo primado da lógica e da razão, pela racionalidade absoluta de todas as coisas, pelo primado da consciência sobre os sentidos.

João dos Reis, pelo contrário, continuava sendo o bicho de que tantas vezes se queixara Mariana. As sua atitudes, os seus gostos ou aversões, explicavam-se unicamente pelo simples primado do sentir sobre o raciocinar.

Mariana desde logo pôs os pontos nos is:

- Não penses que eu quero que voltes de qualquer maneira! Independentemente de continuar a gostar de ti, ou do lado bom que conheci, o teu passado, sobretudo o mais recente, terá que ser como as páginas de um livro aberto, onde tudo, sem excepção, se possa ler.

Mariana continuava pois convicta de que se João dos Reis despejasse tudo quanto vivera, ou sentira, ou fizera, se curaria definitivamente e ficaria liberto para receber a dádiva do seu futuro amor, que, por enquanto, e até se cumprirem aquelas premissas, ela suspendia.

 

 

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publicado por jose murta lourenço às 11:29

CAPÍTULO 22 :CONTINUAÇÃO 5

30.11.10

 

 

Ao contrário do que lhe acontecera na cidade grande, em que tudo estava diferente para pior, na Aldeia do Vento, felizmente, achou tudo ou quase tudo na mesma. Havia novas casas; construíram-se lindas moradias ajardinadas; muitas piscinas de águas azuis; alguns campos de jogos; as estradas pareciam bem tratadas; nenhum obstáculo tapava a vista de outrora; a aldeia mantivera a traça de que tanto gostara a primeira vez que a conhecera e que em seu entender tanto a aproximava, arquitecturalmente, da longínqua e distante Aldeia da Pinha.

As inovações tecnológicas tinham chegado à Aldeia do Vento: lá estava o multibanco. E o sino, bem como o relógio, da igreja, o das horas, meias e quartos, perdera o timbre natural de badalo. Enchia agora os ares da aldeia de sons electrónicos de cana rachada; mas vá lá!: ao menos não lhe puseram um cuco virtual saindo e entrando da torre sineira ao ritmo da dança das horas.

A paz, a vista sobre o mundo distante da grande cidade, ah, essa, felizmente ainda permanecia inalterável, exactamente como era, como sempre foi; quem sabe, se como será para todo o sempre.   

 

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CAPÍTULO 22 :CONTINUAÇÃO 4

29.11.10

 

 

O director não gostou e embora lhe prometesse que ele voltaria ao seu lugar, ao de antigamente, porque estivera ausente muito tempo não seria justo despromover quem tinha o cartão; ainda por cima para beneficiar quem o não possuía.

João dos Reis deveria começar por baixo; e tratar quanto antes do cartão laranja. E de novo voltou ao serviço de paquete.

Tudo era diferente, mais triste, mais sombrio, mais cinzento. Até os corpos que percorriam as ruas estavam diferentes. Quando partiu deixara rostos aliviados e cheios de esperança. Encontrou-os, poucos anos depois, alheios e resignados. Uma estranha mania parecia ter-se instalado em quase todos eles. Mal apanhavam um intervalo, ou assim que saíam do trabalho, corriam para as bancas de jornais e de revistas, compravam-nas aos molhos, rasgavam uma página, todos a mesma, guardavam-na religiosamente, e deitavam o resto, que era quase tudo, para o chão e raramente para o caixote do lixo.

João dos Reis, que não entendia semelhante atitude, começou a prestar atenção ao fenómeno. Não era um caso isolado. Nem esporádico. Era um fenómeno colectivo, que afectava quase toda a gente, como se um vírus comportamental condicionasse de igual modo tantas pessoas sem nada em comum.

Ficou admirado quando descobriu que as tais páginas da revista que eram guardadas como tesouros eram afinal cupões de um concurso televisivo. Achou tanta curiosidade que por uns tempos deixou a rádio e também se pôs a ver televisão. Uma vez mais não reconheceu o que viu. Pior, bem pior, bem muito pior do que quando partira. Se antes apenas acompanhava o futebol e as notícias, e não prestava atenção às telenovelas, o que viu fê-lo desligar bruscamente o televisor: achou tudo quanto viu, naquele pouco tempo, comparável a gigantescas instalações sanitárias públicas, com urinóis, sanitas e duches, mas com paredes transparentes para que os assistentes, cravados ao televisor, pudessem acompanhar o mais pequeno pormenor, desde uma bufa de um concorrente, à dejecção de outro, até à “queca” entre dois deles; isto tudo, para júbilo e gáudio dos telespectadores.

Encontrou muitas estradas novas e pensou como em tão pouco tempo a grande cidade se modernizara; deveria parecer-se agora com as mais ricas entre as mais ricas da Europa. Mas logo ouviu falar de pontes que ruíam, de casas que desabavam como castelos de cartas, de alunos sem escolas, de doentes sem médicos e sem hospitais; e quando na rádio se falava de novos submarinos, e de armas novas para as forças armadas, e de novos aeroportos, e de novos estádios, ficava confuso e já não entendia nada do que era o seu país.

Passadas poucas semanas, ainda o dia de regresso estava fresco na sua memória, cansou-se da cepa torta, pediu a reforma antecipada, e arrumou as botas de bancário.

Foi neste estado de profundo desencanto, e de grande confusão, que João dos Reis voltou à Aldeia do Vento.

 

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publicado por jose murta lourenço às 10:30

CAPÍTULO 22 :CONTINUAÇÃO 3

25.11.10

 

 

João experimentou pela primeira vez desde há muito uma verdadeira sensação reconfortante, de alívio certo e seguro.

Foi assim procurar em paz Carlos e Mariana, que desconheciam que ele tinha regressado da Ilha Encantada, tanto mais que nunca souberam que para tal destino ele havia partido um dia.

 

Ao chegar, o país não o reconheceu; nem outra coisa seria de esperar. Mas também ele não reconheceu o país, o que parece mais grave e estranho. Só então tomou consciência de quanto a permanência na Ilha Encantada por tão largo período de tempo o tinha afastado da família, dos amigos e conhecidos; de tudo; até do país. Igualmente da terra onde nascera, crescera e sempre vivera antes de que as asas da ilusão e do sonho nele se tivessem colado.

Ao país, achou-o esquisito; e muito pior; em muitos aspectos semelhante à ilha que acabara de deixar. E ainda não tinha visto quase nada!

A primeira surpresa esperava-o no anterior local de trabalho, na dependência bancária localizada à beira do grande rio na baixa da grande cidade.

Encontrou o lugar ocupado por um jovem. E como se não bastasse, o director mandou-o chamar, num tom que não gostou, aliás a que nunca estivera habituado antes de ir para a Ilha Encantada. O director perguntou-lhe pelo cartão. João dos Reis estranhou. Como era possível! Na ilha pediram-lhe a carta do padrinho; aqui pediam-lhe um cartão!!! Mas que cartão seria esse?

João dos Reis exibiu o cartão de funcionário, mas o director, agastado, disse-lhe que não era esse.

 

João ficou na sua: - Ou é este ou não é nenhum. Não tenho outro!

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publicado por jose murta lourenço às 09:15

CAPÍTULO 22 :CONTINUAÇÃO 2

24.11.10

 

 

Jacinta sentiu-se feliz e para evitar o paradoxo do impossível acrescentou: “Se algum de nós pensar quando estiver sozinho, mal nos encontremos, contaremos logo todos os pensamentos ocorridos, sejam eles quais foram.”

Não podiam ser mais felizes aqueles dois. Tão felizes que se habituaram a pensar como se uma só alma possuíssem e até nem lhes apetecia pensar na ausência um do outro, com receio de que depois não conseguissem, sem querer, reproduzir com exactidão tudo o que tinham pensado.

Mas, como tudo na vida, não há regra sem excepção. Os espíritos são difíceis de entender e nem sempre o estado do corpo ou a influência do exterior os deixava imunes aos pensamentos privados.

Ora, se um violava de vez em quando a regra do pensamento a dois, e disso tinha absoluta consciência, era natural que admitisse que o outro também o poderia fazer; certamente que o faria. Surgiam momentos de desconfiança e então partiam a loiça.

Jacinta esmurrava-lhe a cara e puxava-lhe pelas orelhas e pelos cabelos.

Artur Santos não queria ficar atrás e largava-lhe um par de tabefes e uns empurrões nem sempre devidamente ponderados.

Depois de muita violência, normal e comum em casais que se amam desta forma tão intensa, e tão partilhada, apanhados os cacos, reparavam que não existia no chão qualquer fragmento de pensamento individual, e caíam nos braços um do outro.

Abraçavam-se demoradamente, choravam e riam, o amor entre ambos crescia, e assim se ia fortalecendo.

Artur Santos e Jacinta eram pois a antítese de João dos Reis. O que aqueles tinham de livro aberto em matéria de pensamentos tinha João dos Reis na forma de funil, ainda por cima devidamente filtrado.

João pensaria muito, infinitamente mais do que Jacinta ou Artur, mas o que deixava escapar não era mais do que uns pingos, e mesmo estes, fazia-os passar pelo crivo, pelo seu filtro de elevada eficiência.

Depois do regresso à grande cidade, passado o tempo que considerou suficiente para que Jacinta não o voltasse a procurar, e porque a distância era agora longa e de difícil percurso, João escreveu a Jacinta dizendo-lhe que seria sempre seu amigo e que para todo o sempre a consideraria uma amiga.

Jacinta respondeu-lhe que sim, que também ela se considerava amiga de João e que o consideraria sempre como amigo, e contou-lhe do seu relacionamento com Artur Santos. Como prova de que havia pensado em voz alta quando recebera a carta de João, e enquanto lhe respondia, a missiva vinha assinada pelos dois; que o estimavam: Jacinta e Artur Santos.

 

(CONTINUA)

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publicado por jose murta lourenço às 09:44

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